Blogagem coletiva – Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher

A violência institucional é uma das marcas mais fortes do atendimento obstétrico no Brasil. Seja em hospitais particulares ou públicos, as agressões ultrapassam o limiar físico para chegar ao psicológico. Acontece quando uma mulher, já privada de seu corpo sem pelos, sem fezes, é privada de sua voz. A vocalização, auxílio importante para a fase expulsiva do parto, é calada com desdém: “Na hora de fazer não gritou.”, é o lugar-comum da equipe obstétrica. Em vez de obedecer seu corpo, a mulher deve obedecer o comando médico: “Faz força, mãe!”

São poucas as feministas que conseguem fazer o elo entre as lutas mamíferas, dentre as quais a luta pelo direito de parir dignamente – que é uma luta pelo direito ao próprio corpo – e o feminismo. O feminismo luta pela igualdade de direitos, e não pela dominação feminina, subjugando os homens. E nenhum homem sofre os maus-tratos que as mulheres sofrem em um atendimento hospitalar.

Isso tudo chega ao ápice quando lemos notícias como as que dizem que as grávidas do sistema carcerário de São Paulo são obrigadas a dar à luz algemadas. A privação da movimentação é repetida na cesariana, quando a mulher é sedada e presa com correias à mesa de cirurgia. Também repetida quando a ocitocina sintética – o sorinho – é ministrada indiscriminadamente. Mas nada se compara à estigmatização que as detentas vêm sofrendo.

E sabe o que é o pior? Os leitores da matéria corroboram a prática. E dentre esses leitores, muitas mulheres defendendo. São as mesmas pessoas que acham que mulher que sai na rua com a roupa curta tem mais é que ser estuprada, e de repente, são as mesmas pessoas que acham que mulher que engravidou e ainda por cima está no SUS (que é de todo mundo e de ninguém), tem mais é que se resignar com o tratamento recebido e dar graças à deus por sair com o filho vivo.

O parto é a confirmação de um ato pecaminoso. Diz a bíblia que as dores do parto são consequências da desobediência de Adão e Eva. É quase compreensível essa visão agressiva que é lugar comum no atendimento obstétrico de uma sociedade extremamente religiosa. É compreensível, mas não é aceitável. Assim como não é aceitável dizer que deus criou o homem e a mulher diferentes, por isso seus direitos têm que ser diferentes.

No SUS, é comum ouvir frases como “Não grita não, mãezinha, que ano que vem você tá aqui de novo”. No atendimento particular, as mulheres que insistem em um parto normal livre de intervenções são chamadas nos bastidores de “frescas” ou “afetadas”. Perceber que o erro nesse caso é do atendimento, e não da mulher, é o primeiro passo para começar a combater a violência cometida contra elas.

Na blogosfera internacional existe o termo Birth Rape para designar os maus-tratos sofridos pelas parturientes nas mãos da equipe obstétrica. Se lhe parece um pouco agressiva a comparação com um estupro, imagine que você não quer fazer sexo – de jeito nenhum -, então seu marido lhe dá duas opções: anal ou oral. E aí? Você tem que escolher uma dessas duas opções?

Agora veja um ultimato desses recebido na situação da parturiente, fragilizada, em uma situação onde ela precisa se entregar à si mesma, mas está sendo obrigada a se entregar ao médico. E o pior: a vida da criança está sendo colocada em jogo, mesmo que não esteja em risco. Como isso é justo? Como isso pode ser considerado normal? Como podemos argumentar que a equipe obstétrica não tem nenhuma culpa no aumento dos índices da cesariana, se estão oferecendo a cruz ou a espada?

É extremamente importante fazer com que as mulheres percebam que elas não podem ser tratadas desse jeito. Difícil, uma vez que a auto-estima da maioria esmagadora das mulheres no Brasil é formada por músicas que as chamam de cachorras e homens que a tratam pior do que aos seus animas de estimação. O que esperar d@ médic@? Principalmente quando essa forma de violência já se tornou rotineira? Por isso estamos organizando, em parceria com o blog Parto no Brasil, essa blogagem coletiva. Para que você use do seu espaço pessoal, seja ele blog, Facebook, Twitter ou qualquer espaço virtual utilizado por você, para disseminar a consciência de que o atendimento oferecido para as gestantes brasileiras não é normal. E não pode ser aceito. Sinta-se à vontade para divulgar a imagem do post em qualquer espaço que julgar adequado.

Se você vivenciou alguma história de violência obstétrica durante seu parto e sente vontade de compartilha-la, a Ligia Moreira, do Cientista que Virou Mãe, está fazendo seu doutorado sobre a percepção das mulheres sobre a violência cometida contra elas no pré-parto, parto e puerpério, e está recolhendo depoimentos sobre isso. Além de mandar pra ela, conta pra gente aqui nos comentários. Conta pro mundo no seu blog. E quer você tenha sido violentada ou não, ajude a espalhar a ideia de que a realidade da obstetrícia no Brasil (não só nos índices) precisa começar a mudar. E essa mudança não deve ser oferecendo cesarianas na rede pública, mas sim, oferecendo um atendimento digno em qualquer lugar.

Post original publicado no Mamíferas

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