A Eurocopa e o Femen

Problemas políticos, violência, falta de estrutura, protestos. Estamos falando da Copa no Brasil 2014? Não, da Eurocopa que começa hoje. E futebol à parte, o evento que tem Espanha, Alemanha, Portugal e até Itália e França como favoritas ao título, anda ganhando destaque por causa dos protestos do Femen. Entenda a importância do ativismo do grupo e porque a Eurocopa pode ficar bem mais agitada com elas por perto.

PRIMEIRO, O FUTEBOL

A Eurocopa, antiga Copa das Nações Européias também acontece de quatro em quatro anos como a Copa do Mundo e Olimpíadas, com a diferença de que a Euro acontece somente com as nações filiadas à União das Federações Europeias de Futebol, também conhecida como UEFA. O evento acontece desde os anos 60 e, devido as dificuldades em centralizar em um único local, as finais da edição de 2008 foram disputadas em mais de um país-sede – Áustria e Suíça.  Repetindo a fórmula, neste ano, o torneiro será disputado na Polônia e Ucrânia.

Fosse só a violência e o ódio racial os grandes problemas de ambas as sedes… Todos sabemos que, com a crise em toda a Europa, a Euro vem servir como alento nesse momento de incertezas, dívidas, falta de emprego e dinheiro em circulação. Um disparate comparado a salários inflacionados e estratosféricos de algumas das estrelas em campo. A grande preocupação, aparentemente só das mulheres locais, além de todos os desafios já citados, é que junto com o evento, a exploração e turismo sexual aumentem, tripliquem, permaneçam.

ENTENDA O QUE É O FEMEN

Para começo de conversa, os objetivos do grupo não são nada modestos e isso é o que torna ainda mais interessante. O Femen surgiu em 2008 em Kiev, capital da Ucrânia. O país ainda é um dos mais rígidos e sem direitos de igualdade em campos sociais: trabalho, política e cultura. Apesar de representar mais 40% da população economicamente ativa, mulheres tem menos de 7% de representação no Congresso, fora a disparidade de salários que é absurda – mais de 20% dependendo da profissão.

O grupo inicialmente fazia protestos por igualdade de direitos e contra a exploração da mulher em diversos segmentos. A ideia era juntar mulheres jovens para lutar por mudanças locais. Os protestos até então eram feitos com cartazes e as meninas de calcinha e sutiã. Em 2009, a ativista Oksana Shachko resolveu tirar o sutiã e conseguir mais atenção para a causa. Foi um marco e a partir de então todos os protestos eram feitos de peito aberto, literalmente. A participação do Femen se tornou frequente e “ameaçador” em eventos como Davos e na eleição do atual presidente Viktor Fedorovych Yanukovych em 2010. Com isso, ganhou a simpatia de ativistas francesas que criaram um braço do Femen por lá e inclusive, muito recentemente de uma brasileira, num movimento ainda pouco expressivo.

Além de fazer os olhos do mundo serem focados também para esse grave problema do turismo e exploração sexual, o Femen quer fazer protestos nas eleições do parlamento ucraniano em outubro deste ano e chegar até 2017 fazendo a revolução feminina , além de vir a ser , segundo elas, o maior movimento feminista já feito na Europa.

SUFFRAGETTES

O que nem todo mundo sabe é que esta forma de protesto considerada pornográfica, uma ameaça aos bons costumes, não é nada inovador. Tudo começou com as suffragettes e o sufrágio no final do século 19, de inicío pelo direito e acesso ao voto feminino. Para saber como foi a inclusão do movimento feminista no sufrágio é preciso primeiro entender o que foi o movimento sufragista. Traduzindo, o termo sufrágio nada mais é do que o poder do povo pelo povo. Ainda no século XIX a classe operária lutava em duas frentes diferentes: uma queria melhores condições de salário, redução de jornada, medidas de higiene e repouso semanal; outra lutava pelo direito a cidadania, incluindo aí o direito ao voto. Até então só que tinha alta renda poderia desempenhar esse direito.

O sufrágio universal foi uma conquista já que conseguiu depois de anos de luta, extinguir por reformas legislativas o voto determinado pela renda. Os direitos da democracia, não incluíam o sufrágio feminino. Esta foi uma luta específica, que abrangeu mulheres de todas as classes. Foi uma luta longa, demandando enorme capacidade de organização e uma infinita paciência. Prolongou-se, nos Estados Unidos e na Inglaterra, por sete décadas. No Brasil, por 40 anos a contar da Constituinte de 1891.

As ativistas que eram consideradas da ala mais severa do movimento geralmente usavam a nudez (total ou só dos seios) como forma de protesto. Isso gerava prisões, intimidação e processos. O que as suffragettes já sabiam e o Femen legitima atualmente é que somente tirando a roupa é que um homem presta a atenção no que uma mulher tem a dizer. Radical, mas é a forma legítima de pedir respeito ainda que a maioria masculina só veja se a mulher que está ali protestando tem peitos grandes, é bonita, jovem e sem celulite.  Para isso acontecer no futebol era mais fácil e melhor qualquer oportunista de ocasião surgir e virar musa, né Larissa Riquelme?

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O PROTESTO

Não há numeros exatos, mas a Ucrânia é um dos países europeus com maior indíce de exploração sexual e tráfico de mulheres. Diferente de Alemanha, Áustria, Suíça, Grécia, Turquia, Hungria e Letônia, onde a protistuição é uma profissão legalizada e regulamentada, na Ucrânia e especialmente na capital Kiev, parte da economia ilegal é movida pelo turismo sexual. A partir da definição do país como uma das sedes de Eurocopa, essa possibilidade de faturar ainda mais com essa indústria aumentou.

Mais efetivamente a partir de maio deste ano é que o Femen começou a marcar presença e ser mais insicivo com os protestos contra o evento. No dia 12,  houve a famosa primeira tentativa de roubar a taça. Houve também prisão das ativistas nesse episódio.

Segundo matéria do UOL de ontem, 7 de junho, mais uma manifestação aconteceu no dia 31 (também de maio). Vestidas de pênis, duas mulheres do grupo Femen fizeram um protesto no Jardim da Independência, em Kiev. O local foi escolhido porque foi montado no local um arranjo de flores no formato da mascote da Eurocopa.

O Femen prevê mais protestos para dois jogos na primeira fase da Eurocopa: Inglaterra x Suécia, marcado para o dia 15 de junho, em Kiev, e Inglaterra x Ucrânia, que acontecerá quatro dias depois, em Donetsk. Isso porque os torcedores ingleses são os principais alvos do grupo. “Torcedores ingleses precisam saber que, se eles tentarem mexer com as mulheres ucranianas, então nós iremos atrás deles”, afirmou Irina Shevcheko, uma das líderes do Femen. “Nós queremos deixar clara a mensagem de que mulheres ucranianas não são objetos sexuais e que a Ucrânia não é o bordel deles”, reforçou Oleksandra Shevchenko, outra integrante do grupo.

E VOCÊ COM ISSO?

É preciso entender que o que acontece distante não precisa ser encarado como um problema isolado, afinal desigualdade, falta de respeito e exploração sexual tem aos montes. Em todo lugar desse planeta. O Brasil que o diga. Não é equivalente, mas a Marcha das Vadias, recentemente hostilizado e com integrantes banidas do Facebook por mostrar o peito e ser considerado pornografia, é um esforço local contra o direito de ser você mesma, de andar como e com a roupa que quiser. E a exploração sexual, escravidão sexual e tráfico de pesssoas é muito mais sério do que somente lutar pelo direito de usar uma saia curta.

Oriente-se, saiba mais sobre os protestos femininos ao redor do mundo, e entenda que isso é uma causa nossa. De homens bem esclarecidos também, mas principalmente de mulheres. Independente do que aconteça, já é uma conquista tirar o foco do futebol num evento muito voltado para partidas, vitórias e derrotas. Mas o esporte não acontece sozinho, nesse caso é mero coadjuvante para que problemas sociais evidentes ganhe os holofotes. Go Femen!


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