26 anos do ‘Cabeça Dinossauro’

Desde o início deste ano, como comemoração, os Titãs tocam na íntegra o emblemático disco “Cabeça dinossauro” em alguns shows especiais. De 1986 até hoje muita coisa mudou. No mundo e na história deles. Se quase trinta anos depois você ainda não se deu conta, entenda porque este álbum é tão cultuado, foi tão revolucionário e é um dos mais importantes da extensa discografia da banda.

1986 foi bem esquisito de degerir. Foi o tipíco ano dos grandes constrates. Ao mesmo que tragédias homéricas abalaram o mundo como a explosão do Ônibus Espacial Challenger e o maior acidente nuclear da história em Chernobyl, 86 foi declarado o ano internacional da Paz pela ONU. As artes ou deram um alívio ou usaram as catástrofes como  inspiração. Nesse embalo, além de obras-primas no heavy metal lançadas por Metallica, Megadeth, Slayer e Iron Maiden, três grandes sucessos do cinema entraram em cartaz: “O nome da rosa” de Jean-Jacques Annaud, “Nove e meia semanas de amor” de Adrian Lyne e “Platoon” de Oliver Stone.

Por aqui, enquanto o Brasil engolia a seco aquele 21 de junho e a eliminação da Copa do Mundo pela França nos penâltis, Xuxa Meneghel estreiava na Globo com o infantil “Xou da Xuxa”. Enquanto a população se acostumava com o Plano Cruzado, enfrentava racionamento de alimentos, vivia juros catástróficos, inflação e tinha os salários congelados pelo governo, vai ao ar o primeiro Criança Esperança comemorando os vinte anos dos Trapalhões. Nesse caldeirão borbulhava uma revolução no rock nacional. Ícones daquele período, como Kid Abelha e Engenheiros do Hawaii lançam os primeiros discos da carreira e o RPM lança o “Rádio Pirata – ao vivo”. Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, Ira!, Capital Inicial e Titãs não ficam atrás e lançam álbuns considerados verdadeiros clássicos desde então.

CABEÇA DINOSSAURO

Os Titãs já eram consagrados por hits como “Sonífera ilha” e eram assíduos nos programas das tarde de sábado na TV, entre eles, o Chacrinha. Era, ainda mais naquela época, a banda ideal para agradar a todos os públicos: da família que se reunia na sala para ver televisão, aos new waves que frequentavam as casas noturnas e agitavam a pista com  New Order, Depeche Mode e Kraftwerck. Ou ainda aos punkers que frequentavam os inferninhos, contavam na capital paulista com apoio de bandas locais e espaço escasso para tocar. Essa era uma aventura porque além da falta de estrutura, a banda  enfrentava com o público brigas de gangues e todo tipo de curtição para uma geração que começava, politicamente, a colher os frutos das Diretas Já e sentia um pouco da liberdade que antecedeu marcos históricos como as eleições para presidente, Sarney no poder e a constituição de 88.

A falta de dinheiro, de perspectiva, a violência, cenário político incerto, toda essa mistura de assuntos eram traduzidos em música, em contestação, em revolta, em verborragia.

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Gravado no estúdio Nas Nuvens (RJ) entre março e abril e  lançado em junho de 86, “Cabeça Dinossauro” é o terceiro álbum de estúdio dos Titãs. Esse disco rendeu algumas estreias para a banda: o início da parceria com o produtor Liminha e o primeiro disco de ouro da carreira consquistado no mesmo ano do lançamento. A formação era ainda a clássica composta por  Arnaldo Antunes (vocal), Branco Mello (vocal), Charles Gavin (bateria e percussão), Marcelo Fromer (guitarra), Nando Reis (baixo e voz), Paulo Miklos (voz, baixo, guitarra), Sérgio Britto (teclados e voz) e Tony Bellotto (guitarra).

Em 1985, Tony Bellotto e Arnaldo foram presos por porte de heroína. Juntando o fato com toda a indignação jovem e típica do período, apesar de ter sonoridades diversas, faixas políticas e pops, “Cabeça” é considerado o disco com mais influência do punk na discografia dos Titãs, no sentido da revolta, da sujeira, das letras curtas e diretas – fato que passou a ser característico das músicas deles a partir de então. Enquanto se revezavam nos vocais, como de costume, principal compositor na época, Arnaldo assina sete das treze faixas em co-autoria com os outros integrantes.

FAIXA A FAIXA

Por ter a favor a empatia e identificação com o público, além de falar de problemas cotidianos e comuns a qualquer cidadão brasileiro, cantar em português, a banda sempre teve o mérito de fazer rock, mas mesclando vários estilos musicais sem peder sua identidade. Mas, era certo que diferente dos discos anteriores, “Cabeça” era oito ou oitenta: se gosta e entende de cara ou mesmo só depois de algumas audições.

1.     “Cabeça Dinossauro”  ( de Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos – duração 2:19)
A faixa título abre o disco e com a característica poesia de enumerações de Arnaldo Antunes, consagrada em “Pulso” e outras canções desse estilo de letra, situa o ouvinte na pré-história juntando pança de mamute, cabeça dinossauro e a ironia oitentista com espírito de porco. De cara, fica evidente que tudo que não for recado dado, está nas entrelinhas.

2.     “AA UU”   ( de Marcelo Fromer, Sérgio Britto – duração 3:01)
A música é um dos grandes hits do disco. Apesar do desabafo, a pegada pop caiu no gosto popular e integrou a trilha da novela “Hiper Tensão“, da Globo.

3.     “Igreja”  (de Nando Reis –  duração  2:47)
O primeiro tópico quase imexível do nosso caos social foi discutido nesta faixa. Apesar de parecer o mais calminho e pacífico da banda, as opiniões fortes de Nando Reis começaram a aparecer e ficou evidente na autobiográfica faixa “Igreja”. Causou auvoroço na comunidade cristã, religiosa, católica tocar na ferida do verdadeiro ópio do povo e dizer nos versos “Não gosto de madre, padre, não acredito em Cristo, não digo amém”, culminando no resumo de “Não tenho religião”. Ainda soa muito polêmica e tem um dos riffs mais marcantes do disco.

4.     “Polícia”   (de  Tony Bellotto e  Sérgio Britto – duração 2:07)
A polêmica continuou agora com relação à polícia. Não é mera coincidência a letra ter sido escrito por Tony Belotto, um então recém-saído do sistema penintenciário. Ainda que estadia tenha sido curta deu pra sentir de perto o cenário que corrompe, e dentro e fora das selas tortura, assassina e distribui violência gratuita. Não mudou nada. “Polícia” é uma das músicas mais conhecidas da banda e um dos grandes hits desse disco.

5.     “Estado Violência”   ( de Charles Gavin e Paulo Miklos – duração 3:07)
Também falando sobre a violência das ruas e de um povo marginilizado em todos os sentidos, “Estado violência” é a primeira participação do baterista Charles Gavin em uma autoria de letra. É uma ótima faixa, adorada pelos reais fãs, mas marginalizada tanto nas rádios como nos shows. Esse período comemorativo talvez seja a grande oportunidade de curtí-la ao vivo, já que normalmente era raríssimo tê-la no set list.

6.     “A Face do Destruidor”    ( de  Arnaldo Antunes, Paulo Miklos – duração     0:34)
Essa talvez seja a música de menor duração dos Titãs e muito provavelmente, pelo contexto, só poderia mesmo estar num disco como esse. Segundo a Wikipedia, possui 9 versos ditos duas vezes, totalizando 18 versos ditos em menos de 30 segundos. Por sua curta duração, não foi tocada nas rádios.

7.     “Porrada”     (de  Arnaldo Antunes, Sérgio Britto  – duração 2:49)
Fechando a trilogia, “Porrada” vinha protestar contra os cabides de emprego, aos formandos sem méritos, diplomas comprados, cargos inúteis e todo o tipo de mamata burguesa, corporativa ou governamental para desvio de verba e corrupção. E claro, foi considerada uma insitação à violência. Eles gritavam e os caras não faziam e continuam não fazendo nada além de engordar a própria conta bancária.

8.     “Tô Cansado”  (de Arnaldo Antunes, Branco Mello – duração 2:16)
Também muito característica das letras do Arnaldo, bobinha, “Tô cansado” fala, além do cotidiano, da vida arrastada, da falta de perspectiva que cansa e injuria, deixa o cidadão cansado de tudo, de se indignar e até de si mesmo. Uma das poucas coisas que se tinha e ainda se tem direito.

9.     “Bichos Escrotos”   ( deArnaldo Antunes, Sérgio Britto, Nando Reis – duração3:14)
Agora a brincadeira começa a ficar boa. O primeiro grande hit de “Cabeça” é “Bichos escrotos”. Na sonoridade suingada, flertava com o funk, assim como parte de “Estado Violência” e “O que”, faixa que encerra o disco. Tocada à exaustão, a letra de “Bichos” é curta, grossa, nada de amor, falando do que de certa forma a banda vivia até então para ser um artista de sucesso: trazer o underground, o submundo habitado por ratos, baratas para os grandes centros, para a vida comum, invadindo o mundo confortável do cidadão civilizado pelo rádio, TV, jornal e todo o meio possível de comunicação. O palavrão, algo pouco comum para a época, em algumas rádios ganhou aquele famoso “piii” na hora do “Vão se foder”. Ainda assim, foi representativa para a época e sempre será boa demais de cantar.

10.     “Família”    (de  Arnaldo Antunes, Tony Bellotto  – duração  3:32)
A mais fofinha das músicas desse disco é justamente a reggaeira “Família”. Curiosamente é cantada por Nando Reis, que não escreveu a letra e nem se parece com o cara que redigiu os versos que gritam a plenos pulmões contra a Igreja. Mais longa do disco, é ainda hoje o hino da família brasileira, falando das alegrias e desabores de todo cotidiano dos lares nobres ou humildes.

11.     “Homem Primata”   (Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto  – duração 3:27)
Essa é a única faixa que conta com uma participação especial (o parceiro Ciro Pessoa) e tem parte da autoria de Marcelo Fromer. Assim como a faixa título, traduz o conceito do disco e do homem que naquele momento busca evolução, transformação de pensamento mesmo vivendo num mundo capitalista que dilacera, corrompe e cospe de volta para a subvida. É a primeira vez que fazem inserção de trecho de letra em outro idioma, neste caso, o inglês.

12.     “Dívidas”  (de  Arnaldo Antunes, Branco Mello – duração 3:06)
Cantada por Branco Mello, “Dívidas” é auto-explicativa e um scanner do que vivia o povo brasileiro então: inflação, juros em cima de juros, endividamento, SPC, Serasa, credores, agiotas, empréstimos, falta de correção monetária, muito mês para pouco dinheiro. Daquela época mudou pouco pra hoje. Talvez só os indíces de inflação e o nome da moeda corrente.

13.     “O Que”  (de   Arnaldo Antunes – duração  5:38)
Única de autoria solo de Arnaldo Antunes, a dançante “O que” encerra o disco parecendo não dizer nada mas dizendo tudo. Simples, direta e sem frescura como boa parte do disco. A música também foi um sucesso popular e tocou bastante nas rádios. Encerrava-se aqui as músicas e começava a ser escrito na revolução do rock nacional dos anos 80 o nome dos paulistanos dos Titãs.

CAPA


Inovadora e traduzindo toda a crueza de algumas das faixas, a capa foi baseada em um esboço do pintor italiano Leonardo Da Vinci, intitulado “A expressão de um homem urrando”. Um outro desenho de Da Vinci, “Cabeça grotesca”, foi para a contracapa do disco.

REPERCUSSÃO

Numa época em que a redemocratização acabou em partes com a censura das músicas um disco recheado de revolta e alguns palavrões certamente não passaria pelo crivo dos auditores e liberado para venda. Mas ainda houve problemas.

A banda deu caráter antológico à obra ao resgatar “Bichos Escrotos”, música que tocavam desde 1982 e que só pôde ser gravada nesta ocasião.  Mesmo assim, a censura vetou a faixa nas rádios por conta do “vão se foder”, o que não desencorajou algumas rádios a tocarem uma versão com a tal frase vetada, às vezes até a própria versão original, o que acarretava um pagamento de multa. Usando as gírias da época, foi um frisson na juventude que achava o máximo poder cantar uma música tão pouco comportada e passava de mão em mão a letra copiada em folhas de caderno.

Das 13 faixas do álbum, 11 foram executadas em rádios. Em 1997, a revista Bizz elegeu “Cabeça” como sendo o melhor álbum de poprock nacional, isto quando a banda ainda daria um salto maior comercialmente, com o Acústico MTV, lançado neste mesmo ano.

COVER

Houveram outras mas a regravação mais popular é de “Polícia”, feita pelo Sepultura. A música é faixa bônus do disco “Chaos A.D.” de 93. Um ano depois, os Titãs estavam no line up do festival Hollywood Rock e chamaram os Sepulturas que também participavam do evento, para fazer uma jam e tocarem juntos a faixa ao vivo.

REMASTERIZAÇÃO

Para comemorar os trinta anos de banda e os vinte e seis anos do disco, os Titãs lançaram em maio uma versão luxo do “Cabeça dinossauro”  disponibilizada na loja do iTunes. Além das 13 faixas oficiais, a nova edição do  traz um segundo CD, com demos que deram origem ao LP e com faixas inéditas como “Vai pra Rua”, que foi substituída por “Porrada” no disco de 24 anos atrás.

E o resto é história. Além da temporada no Sesc Belenzinho, Virada Cultural, outras datas com a banda tocando o disco na íntegra ainda estão sendo marcadas pelo Brasil. Programe-se e seja como for, não deixe de ouvir.

Fontes de pesquisa: Memória, Blog Boy ishn girly  e Wikipedia

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