Dez anos sem Joe Strummer

Se estivesse vivo, no último dia 21 de agosto, o vocalista Joe Strummer do The Clash completaria 60 anos. Falecido em 2002, seu legado continua vivo e foi bastante revisto nos últimos dias por fãs, curiosos e metidos a ufanistas por causa do “London Calling” excessivo usado durante os Jogos Olímpicos de Londres. Modismos à parte, saiba mais ou relembre a trajetória genial de um dos maiores e mais emblemáticos vocalistas da história do punk.


O COMEÇO
Filho de uma enfermeira e de um diplomata, a família Strummer mudou muito de países e locais e o pequeno John Graham Mellor morou em lugares como o Cairo, Cidade do México, entre outros. Ele e o irmão mais velho passaram a infância em um colégio interno sem ver os pais, que embarcaram  para a África e ficaram por lá por sete anos. Mas foi na escola que ele desenvolveu o amor pelo rock ouvindo Little Richards e Beach Boys – banda que ele considerava sua razão de querer entrar para o mundo da música. Joe também era fã do cantor de folk Woody Guthrie e usou como nickname o “Woody” por muitos anos.

Em 1970, David, seu irmão mais velho, entrou para o partido inglês racista e de extrema direita National Front e cometeu suícidio logo em seguida. O fato marcou o ainda pré-adolescente que, na ausência dos pais, teve que reconhecer o corpo do irmão morto. Ele então mudou de escola, indo para o Saint Martins College of Arts e lá tornou-se cartunista e desenhista profissional. Era um cara de poucos amigos e de ideias vanguardistas para a época. Por isso, não foi tão chocante anunciar em 1971 que se tornaria a partir de então, vegetariano – opinião que manteve e seguiu durante o resto da vida. Um desses amigos era Tymon Dogg, o multinstrumentista que colaborou por muitos anos com o Clash e os Mescaleros.

Em 1973, Joe se mudou para Wales e com amigos de colégio montou a primeira banda, o Flaming Youth, que logo depois passou a se chamar The Vultures. Ele dividiu os estudos com a banda e o trabalho temporário de coveiro. No ano seguinte, a banda resolveu ir para Londres e lá Joe reencontrou Tymon Dogg em uma das performances que Joe fazia como artista de rua. Com uns caras que dividia uma casa, formou a banda The 101´ers, nome inspirado no endereço onde moravam. Tiveram algum sucesso tocando músicas populares e blues em pubs e bares da cidade.

TORNANDO-SE STRUMMER
Era 1975 e Joe resolveu abandonar o “Woody” e adotar o “Strummer” em auto-homenagem depreciativa ao seu jeito de tocar guitarra. Foi nessa época que começou a escrever músicas e fez o primeiro single da banda, inspirada na sua namorada na época.

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THE CLASH
Era abril de 1976 e uma banda desconhecida chamada Sex Pistols abriu o show do 101´ers no The Nashville Rooms, em Londres. Joe ficou impressionado com eles e foi falar com Mick Jones e Bernie Rhodes, que viriam a ser, respectivamente,o guitarrista e o empresário do The Clash. Jones tinha uma banda chamada London SS e convidou Joe para ser vocalista. Então, com Joe no vocal, Jones na guitarra, Paul Simonon no baixo, Keith Levene na guitarra e  Terry Chimes na bateria juntaram-se e até gravar o primeiro disco foi um estalo. A banda foi batizada por Simonon e passou a se chamar The Clash. Gravaram o debut album em 4 de julho de 76, abrindo um show do Sex Pistols. Menos de 1 ano depois, em 25 de janeiro de 77, assinaram com a CBS e passaram a ser um quarteto. Levene foi demitido, Chimes saiu e em seu lugar entrou Topper Headon.
A banda sempre foi ativista e por isso metida em muitas polêmicas e episódios em que estavam envolvidos de alguma forma. Strummer era uma figura conhecida pela polícia – por mais de uma vez foi preso ou por pichar “The Clash” num muro ou por tacar a guitarra num espectador que incitava a violência durante o show. Joe viu que reagia a violência com violência e o fez pensar que isso não resolvia, por isso foi um dos caras que mais se envolveu como entidades e movimentos anti- racismo, violência e discriminação.  Nessa época saiu o segundo disco, “Combat Rock” lançado em 82.

LONDON CALLING
Depois de dois discos bem recebidos pela crítica, “London Calling” foi a consagração da banda. Das dezenove faixas, sete, incluindo a faixa título, foram hits que ficaram semanas nas principais paradas. Além da inovação musical, o tom politizado que marcou toda a carreira deles estava presente em faixas como “Spanish bombs” com sua letra inspirada na Guerra Civil espanhola , “Guns of Brixton” sobre as guerras de gangues nos arredores de Londres e, novamente a faixa título, que retrata uma das mais severas crises econômicas vividas pela Inglaterra daquele fim dos anos 70. A música viria, antes do surgimento de “Should I stay should I go” gravada em 82 no disco “Combat rock”, ser o maior hit e um dos sons mais conhecidos da banda. O álbum está na lista dos 200 mais importantes segundo o Rock and Roll Hall of Fame.
A capa faz uma referência consciente à do primeiro álbum de Elvis Presley. Feita por Pennie Smith, a foto mostra o baixista Simonon segundos antes de quebrar seu o baixo em um show em Londres. Em 2002, a capa recebeu o prêmio de “melhor foto de Rock’ n’ Roll de todos os tempos” da revista Q Magazine.

Dali em diante, vários episódios fizeram a banda se desintender criando um clima ruim de convivência entre eles. Brigas, tensão em todos os momentos, Joe metia os pés pelas mãos, tomando decisões sozinho sem consultar a banda. A gota d´água foi demitir Mick Jones. Headon foi demitido por seu vício em heronia e agora a banda seguia com só dois membros da formação original. Rhodes sugeriu que Strummer contratasse novos músicos. Gravaram em 1985 “Cut the crap” que foi mal recebido por fãs e pela crítica e dessa vez, foi Joe quem resolveu tirar o time de campo.
De 86 e 99 Strummer trabalhou intensamente com trilhas sonoras para o cinema, incluindo músicas para o filme “Sid and Nancy”. Nesse tempo também tocou com antigos companheiros como Jones e a banda Big Audio Dynamite.

MESCALEROS
De 1999 a 2002, Strummer se juntou a alguns músicos e formou a banda The Mescaleros. O primeiro álbum foi lançado em 99 pela Mercury Records. Se chamava “Rock Art and the X-Ray Style”.
Depois uma tour intensa pela Europa e EUA, em 2001, assinaram com a Hellcat Records e gravaram o segundo disco. Os shows sempre incluiam músicas do Clash no set. Joe tocou até um mês antes da sua morte, sendo o último show em 22 de novembro de 2002 na Liverppol Academy.

LEGADO
Joe faleceu de ataque cardíaco em dezembro de 2002, um mês após a reunião da banda – fato que não acontecia havia 20 anos desde a separação no fim dos anos 80.  Em 2003 a banda entrou para o Hall of Fame e “London Calling” foi tocada e cantada por uma banda formada por Elvis Costello, Bruce Springsteen, Steven Van Zandt, Dave Grohl, Pete Thomas e Tony Canal em tributo ao Clash e Strummer.
Sua última aparição póstuma aconteceu em 2007, com o lançamento do documentário “Joe Strummer — The Future Is Unwritten”, uma celebração/homenagem ao vocalista e conta todos os fatos, shows e eventos desde o Clash assinando o primeiro contrato com uma gravadora até a última aparição com o The Mescaleros. O documentário foi dirigido por Julien Temple, que também dirigiu o aclamado doc dos Sex Pistols, “The Filth and the Fury”. Outros documentários menos expressivos foram produzidos entre 2007 e 2008, contando a história da banda sem focar muito na parte musical mas em entrevistas com os integrantes.

E vivemos desde então órfãos de um dos grandes gênios da música.

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